BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglorious Basterds) de QUENTIN TARANTINO (2009) 
Ao contrário do que escrevi na sexta da outra semana, acabei não resistindo e fui conferir a nova obra do TARANTINO no dia seguinte mesmo, mas por casualidades do destino, e motivos particulares só agora arranjei tempo e disposição para comenta-lo. E posso afirmar, que mesmo passado uma semana, ainda estou embasbacado com tal obra. Muitas coisas afloram na minha mente, incluindo palavras antagônicas, para descrever a grandeza do que vi. Como todos sabem, esse era mais um projeto pessoal do cara. Fanático pelo cinema de gênero, a bola da vez agora são os filmes de guerra, especificamente os da segunda guerra mundial. TARANTINO então fez um apanhado de elementos relevantes ao tema, sem deixar de lado seu toque pessoal, claro. E para aqueles que implicavam com suas narrativas elípticas, cheias de idas e vindas no tempo, o diretor aqui nos brinda não com uma, mas com duas tramas lineares, que se desenvolvem paralelamente para finalmente se cruzarem no final. 
Quem esperava um filme de ação à moda antiga, sobre um bando de desgraçados arriscando o pescoço numa Europa emporcalhada de nazis, vai se surpreender, pois aqui a coisa vai mais além! E, vejam só, com um requinte invejável!! A sequência de abertura já virou um clássico instantâneo! É quando uma tropa da SS, liderada pelo coronel Hans Landa (CHRISTOPH WALTZ, mais do que perfeito) chega em uma fazenda em busca de judeus refugiados. Longa e lenta, marcado pelo diálogo entre o fazendeiro Perrier LaPadite (DENIS MENOCHET) e mr. Landa, o clima de tensão vai crescendo até explodir num massacre. Aonde sobrevive a garota Shosanna Dreyfus (MÉLAINE LAURENT, simplesmente maravilhosa!). Que depois de um tempo, fica dona de um cinema em Paris (usando pseudônimo de Emanuelle!!!). Paralelo a isto, acompanhamos a trajetória dos Bastardos Inglórios, um grupo de soldados judeus norte-americanos, liderados pelo caipira Aldo Raine (BRAD PITT), cujo o único objetivo dos caras é ir para Europa exterminar nazistas. Levando consigo inclusive escalpos de seus desafetos! A coisa começa a complicar quando o jovem alemão Frederick Zoller (DANIEL BRÜHL), tido como grande herói nacional após exterminar 300 inimigos no campo de batalha, se apaixona por Shosanna/Emanuelle (sem saber de sua origem judaica, of course). O cara é a menina-dos-olhos do Reich, tanto que fazem um filme sobre ele, dirigido pelo próprio Joseph Goebbels (SYLVESTER GROTH), que para aqueles que mataram as aulas de história ele era o ministro de propaganda nazista, e um dos braços direitos de Aldolf Hitler (MARTIN WUTTKE, numa interpretação que abusa da canastrice). Zoller convence a todos do alto escalão para que a estréia do filme seja no cinema da moça, e que terá inclusive a presença do Fhürer em pessoa! Mal sabem eles que essa será a grande oportunidade de Shosanna para se vingar, eliminando duma vez toda a cúpula nazista, seu plano é simplesmente incendiar o cinema, usando películas de nitrato. Enquanto isso, o bando de bastardos, planejam também invandir a premiere com bombas e explodir tudo!!! 
Como afirmei antes, TARANTINO narra as duas tramas paralelas de forma redondinha, mantendo apenas seu gosto por intertítulos e dividir seu filme por capítulos. O roteiro embora apresente algumas lacunas (deve ter sido pela redução do roteiro, que segundo QUENTIN, era muito extenso), mostra todo o talento do diretor em criar diálogos inspiradíssimos. E uma enxurrada de personagens interessantes, que foram pouco explorados, como os própios Bastardos, em especial ao lunático alemão Hugo Stiglitz (TIL SCHWEIGER) que se junta a trupe por adorar aniquilar os nazis, e Donny Donowitz (ELI ROTH, surpreendendo). Vale dizer que as duas histórias seguem em tons distintos: a de Shosanna tem todo aquele clima dos velhos thrillers de guerra investindo mais no suspense, enquanto a da turma de BRAD PITT, segue num tom mais aventureiro, eu diria até mais farsesco, apesar de ser mais violento, incluindo closes de escalpos e uma cena em que o personagem de ROTH destroça a cabeça de um alemão com um taco de beisebol!!! O mais interessante é que as duas partes não formam um contraste gritante, ao contrário se complementam de forma harmoniosa, compondo o painel tão almejado pelo diretor.As tão famosas referências cinematográficas tarantineanas borbulham aqui, desde citações a italianada como ENZO CASTELLARI, UMBERTO LENZI, SERGIO LEONE, JOE D'AMATO, entre outros (não falta nem a trilha do clássico spagghetti O DÓLAR FURADO (Un Dollaro Bucato (1965) de GIORGIO FERRONI) passando pelo cinema alemão: G. W. PABST e a documentarista oficial do partiod nazista a famigerada LENI RIEFENSTAHL. Pra minha surpresa numa cena na frente do cinema da nossa heroina está passando o clássico O CORVO (Le Corbeau, 1943) de um dos mestres do suspense, HENRI-GEORGES CLOUZOT, e que coincidentemente tive a felicidade de conferir na edição deste ano do Fantaspoa!!! Até comentei ele num post! 
O filme empilha cenas antológicas, como o já citado início, o tiroteio na taverna, o encontro dos personagens no cinema (destaque para a hilariante sequência em que PITT e sua turma tentam se passar por italianos!!) e a cena final. A ação literalmente explode, em momento rápidos e até surpreendentes, precedidos por longos diálogos tensos. O elenco, embora boa parte desconhecido, está quase todo em estado de graça. O grande senão fica para a caricatura grotesca de MARTIN WUTTKE como Hitler, ao meu ver, o ponto fraco da obra. Temos até o MIKE MYERS como um tal general Ed fenech (homenagem óbvia a uma das musas do Blob EDWIGES FENECH). Mas o melhor mesmo fica para o austríaco CRISTOPH WALTZ, seu coronel Hans Landa é espetacular, de fala mansa a princípio, mas dono de uma frieza e filhadaputice monumental! Até estou torcendo para que iluminem a mente dos produtores da série 007. Imaginem que belo antagonista ele seria! Faz anos que James Bond clama por um vilão carismático! Como afirmei lá no inicio do texto, palavras contraditórias perturbam minha mente quando penso nesse filme, senão vejamos: TARANTINO nos presenteia com seu filme mais maduro, lápidado e enxuto (sei que é estranho usar esse termo para um filme de duas horas e meia, mas é o que sinto!). O grande clímax é sem sombra de duvida o incêndio do cinema no final, um momento de grande cartase, em que o autor, tomando liberdade, rasga qualquer vínculo com a história, ou seja, com a pretensa realidade. É o grande paradoxo do filme: é na destruição do cinema que nos demos conta que estamos diante de uma obra que não pretende ser outra coisa, senão puro cinema em estado bruto! Como há muito eu não via, aliás. Se você ainda não viu, siga minha dica: vá correndo assistir essa obra-prima!!
Escrito por Blob às 15h26
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